Do Zaíra à Nova York: Produção de Mauá ultrapassa fronteiras e leva realidades sociais brasileiras

Do Zaíra à Nova York: Produção de Mauá ultrapassa fronteiras e leva realidades sociais brasileiras
Curta-metragem 'O que Se Quer é Ser Doutor será exibido em circuito cinematrográfico nos Estados Unidos, além de concorrer premiações. Luz, câmera e realidade periférica. Dirigido pelo morador do Jardim Zaíra e educador do Quartum Crescente de Mauá, Jason Martins, 41 anos, o curta-metragem O que Se Quer é Ser Doutor será exibido no circuito cinematográfico Saphira Ventura Gallery, em Nova York, nos Estados Unidos, entre quinta-feira (24) e 1º de outubro. A produção regional participa do Earth Film Festival, promovido pelo Instituto Bienal Amazônia, que também vai premiar os melhores conteúdos com base nos 17 ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável) da ONU (Organização das Nações Unidas).
Muito mais que um filme de Hollywood “baseado em fatos reais”, a obra traz às telas a existência de luta, dor, acolhimento e o choque de classes. Produzido e roteirizado entre 2021 e 2024, o curta acompanha uma médica recém-formada que se depara com uma realidade muito distante daquela para a qual foi preparada. Ao atender uma família em situação de extrema pobreza, ela se torna a principal esperança para salvar o filho mais velho, um trabalhador da coleta de recicláveis que contraiu uma grave infecção e precisa de medicamentos de alto custo. O caso coloca a jovem médica diante de questões que ultrapassam os limites da profissão. Enquanto tenta encontrar uma solução para o paciente, ela confronta as próprias concepções sobre o que significa ser “doutora” e percebe como a falta de recursos pode transformar o acesso à saúde em uma questão de sobrevivência.
A situação se torna ainda mais complexa quando a filha da família, uma jovem trans, decide contribuir com o tratamento do irmão por meio do dinheiro obtido com a venda ilícita de entorpecentes. Em meio ao desespero, a médica e família precisam encarar um dilema: até onde é possível recorrer a recursos de origem criminosa quando a vida de uma pessoa está em jogo?
Todo o cenário surgiu de um caso vivido pelo diretor Jason Martins há cinco anos, quando trabalhava no Serviço de Medidas Socioeducativas da Fundação Casa de São Bernardo. “Em uma visita acompanhando um jovem, precisei percorrer cerca de 40 minutos por uma trilha para chegar à comunidade. O barraco onde a família vivia ficava três degraus abaixo do nível da rua. A água que saía do banheiro escorria por uma vala aberta, que passava pela cozinha e pela sala”, relatou. A estrutura familiar também chamou atenção. Uma mãe solo neurodivergente com três filhos, dois envolvidos no tráfico de drogas e uma filha que havia sido abusada pelo padrasto. “Legalmente, a equipe só poderia fazer aquilo que a lei determinava. Só que isso era muito pouco, precisava mostrar e falar dessas realidades que são de diversas famílias, porque essas pessoas são invisibilizadas. Venho desenvolvendo pesquisas que buscam investigar outras possibilidades de fazer cinema a partir dos territórios periféricos, de seus sujeitos, de seus conflitos e, principalmente, das formas de conhecimento que nascem nesses espaços”, acrescentou Martins.
A produção busca provocar uma reflexão sobre o direito de viver e sonhar a partir de uma perspectiva construída de dentro para fora. Para isso, reuniu elenco e equipe de produção formados integralmente por pessoas das periferias. A escolha estética também contribui para essa narrativa: a fotografia, marcada por tons escuros e esverdeados, reforça a tensão presente na história e evidencia as condições precárias da casa onde a família vive.
Após passar por sessões na Capital, no Rio de Janeiro e durante a COP 30 no Pará, o grupo de artistas diz estar vivendo um sonho jamais pensado. “Ver circulando em Nova York significa muito para toda produção brasileira, principalmente a periférica. Produzir com pouco recurso é difícil, mas debater sobre essas histórias precisa de reconhecimento”, falou a diretora de fotografia do curta, Gica Duarte, 41.
“Não é uma narrativa da indústria cinematográfica feita por grandes empresas. Entrar em um circuito internacional é muito potente. É a periferia chegando em locais que jamais alcançaria”, definiu o diretor Jason Martins.